domingo, 15 de novembro de 2009

Drogas: 5 mil anos de viagem

O homem tem uma longa história de convivência com psicotrópicos - há milênios eles são usados desde em ritos indígenas até animadas festas romanas. Conheça a trajetória das principais drogas na nossa cultura.

por Texto Marco Antônio Lopes

Há cerca de 5 mil anos, uma tribo de pigmeus do centro da África saiu para caçar. Alguns deles notaram o estranho comportamento de javalis que comiam uma certa planta. Os animais ficavam mansos ou andavam desorientados. Um pigmeu, então, resolveu provar aquele arbusto. Comeu e gostou. Recomendou para outros na tribo, que também adoraram a sensação de entorpecimento. Logo, um curandeiro avisou: havia uma divindade dentro da planta. E os nativos passaram a venerar o arbusto. Começaram a fazer rituais que se espalharam por outras tribos. E são feitos até hoje. A árvore Tabernanthe iboga, conhecida por iboga, é usada para fins lisérgicos em cerimônias com adeptos no Gabão, Angola, Guiné e Camarões.

Há milênios o homem conhece plantas como a iboga, uma droga vegetal. O historiador grego Heródoto anotou, em 450 a.C., que a Cannabis sativa, planta da maconha, era queimada em saunas para dar barato em freqüentadores. “O banho de vapor dava um gozo tão intenso que arrancava gritos de alegria.” No fim do século 19, muitos desses produtos viraram, em laboratórios, drogas sintetizadas. Foram estudadas por cientistas e médicos, como Sigmund Freud.

Somente no século 20 é que começaram a surgir proibições globais ao uso de entorpecentes. Primeiro, nos EUA, em 1948. Depois, em 1961, em mais de 100 países (Brasil entre eles), após uma convenção da ONU. Segundo um relatório publicado pela entidade em 2005, há cerca de 340 milhões de usuários de drogas no planeta. Movimentam um mercado de 1,5 trilhão de dólares. “Ao longo da história, as drogas tiveram usos múltiplos que alimentaram e espelharam a alma humana”, diz o professor da USP Henrique Carneiro, autor de Pequena Enciclopédia da História das Drogas e Bebidas. Elas deram origem a religiões, percorreram o planeta com o comércio, provocaram guerras, mudaram a cultura, música e moda. Acompanhe agora uma viagem pela história das substâncias mais famosas.

Ayahuasca

Índios da bacia Amazônica tomam esse chá alucinógeno há mais de 4 mil anos – um hábito que chamou a atenção de portugueses e espanhóis assim que eles desembarcaram por aqui, no século 16. Ao chegarem à Amazônia, padres jesuítas escreveram sobre o chá da “poção diabólica” e as cerimônias que os indígenas realizavam depois de consumir o ayahuasca. Durante todo esse tempo, a bebida provavelmente teve a mesma receita: um cozido à base de pedaços do cipó Banisteriopsis caapi.

O nome quem deu foram os índios quíchuas, do Peru. Ayahuasca quer dizer “vinho dos espíritos” – segundo eles, o chá dá poderes telepáticos e sobrenaturais. Mas os quíchuas são apenas um dos 70 povos na América Latina que tomam o chá com freqüência. Na maioria dos casos, o chá é visto como uma divindade. Mas a ayahuasca também serve ao prazer: ao final dos rituais, muitos índios transam com suas parceiras.

No século 20, a fama do chá correu o mundo. Escritores viajavam para a América do Sul, enfrentavam o calor e a umidade e dormiam em aldeias para ter experiências alucinógenas. Entre os pirados estavam o poeta beatnik William Burroughs. Burroughs esteve no Brasil e na Colômbia, em 1953. Quando voltou aos EUA escreveu o livro Cartas do Yagé (yagé é outro nome do chá, tomado na periferia de Bogotá). “Uma onda de tontura me arrebatou. Brilhos azuis passavam em frente de mim”, escreveu. Depois, recomendou a bebida ao amigo Allen Ginsberg, que veio para a Amazônia em 1960. Hoje o chá é tão divulgado na internet (mais de 400 mil sites) que existem até pacotes turísticos vendidos por entidades clandestinas. A pessoa paga hotel, avião e visitas a tribos que fazem o culto. O custo: entre 1 000 e 1 300 dólares.

Cacto peiote

Cerca de 10% das mais de 50 espécies de cacto têm propriedades alucinógenas. A mais conhecida é a Lophophora williamsi, que brota em desertos no sul dos EUA e norte do México. É usada em rituais há 3 mil anos e cerca de 50 comunidades indígenas a consideram sagrada. Os huichois, do norte do México, chegam a fazer uma peregrinação anual de mais de 400 km para colhê-la. Quando a encontram, fazem um ritual: em silêncio, agem como se estivessem diante de um cervo, até lançarem uma flecha na planta. Quando voltam com o peiote para a tribo, organizam rituais e celebrações sob efeito da droga.

Algumas tribos da região, no entanto, descobriram os poderes do peiote somente no século 19. “Depois da Guerra Civil Americana, os índios comanches e os navajos viveram uma terrível crise com o extermínio dos seus búfalos e os massacres que sofreram”, conta o pesquisador da USP Henrique Carneiro. Para amenizar a fase difícil, “aderiram ao consumo religioso do peiote”. Numa das cerimônias, chamada “dança fantasma”, os índios dançavam alucinados e diziam se comunicar com os mortos.

O escritor inglês Aldous Huxley tomou a mescalina, substância do cacto. Descreveu as viagens no livro As Portas da Percepção: “Foi como tirar férias químicas do mundo real”. Mas nem só o underground era seduzido pela droga. O físico inglês Francis Crick – que em 1953 descobriu a estrutura do DNA – provou o peiote várias vezes e gostou. Em 1967, quando lançou o livro Of Molecules and Men (“Sobre Moléculas e Homens”, sem tradução em português), o cientista colocou na epígrafe a frase “Este é o poderoso conhecimento, sorrimos com ele”, tirada do poema Peyote Poem, do escritor e doidão Michael McClure.

Cocaína

Quando chegaram à América, os espanhóis perceberam que os índios da região tinham adoração pela folha da coca. Pragmáticos, passaram a distribuí-la aos escravos para estimular o trabalho. Acontece que os brancos também tomaram gosto pela coisa. E as folhas foram parar na Europa.

No Velho Continente, a planta era utilizada na fabricação de vinhos. Um deles, o Mariani, criado em 1863, era o preferido do papa Leão 13, que deu até medalha de honra ao produtor da bebida. Foi nessa mesma época que o químico alemão Albert Niemann isolou o alcalóide cloridrato de cocaína. Como tantos outros cientistas que você vai conhecer nesta reportagem, ele usou o corpo como cobaia: aplicou a droga na veia e sentiu a força do efeito.

O psicanalista Sigmund Freud investigou o uso da droga. Achava que ela serviria como remédio contra a depressão e embarcou na experiência: “O efeito consiste em uma duradoura euforia. A pessoa adquire um grande vigor”. Até que um dos pacientes, Ernst Fleischl, extrapolou e morreu de overdose. Freud, então, abandonou a droga.

Era normal laboratórios fazerem propaganda sobre a cocaína. Dizia-se que era “excelente contra o pessimismo e o cansaço” e, para mulheres, dava “vitalidade e formosura”. Somente no começo do século 20 é que políticos puritanos começaram a lutar pela proibição da droga, que praticamente sumiu do país. Só voltaria no fim da década de 1970, quando a cocaína refinada na Bolívia e Colômbia entrou nos EUA. E, mesmo proibida, não saiu mais.

Crack

Feita pela mistura da pasta de cocaína com bicarbonato de sódio, leva em segundos a um estado de euforia intenso que não dura mais do que 10 minutos. Assim, quem usa quer sempre repetir a dose. O nome crack vem desse efeito rápido, que surge como estalos para o usuário.

O consumo de crack explodiu no meio dos anos 80, como alternativa barata à cocaína. Mas a droga aparecia também em festas de universitários e até de políticos. Um desses casos ficou famoso. Em janeiro de 1990, o prefeito de Washington, Marion Barry, foi preso numa operação do FBI quando estava num quarto de hotel com uma antiga namorada, cooptada pelos policiais. Assim que ele começou a usar crack, os agentes entraram no lugar e o prenderam. Barry renunciou e ficou detido por 6 meses numa prisão federal.

Em São Paulo, o crack ainda hoje é a droga mais vendida em favelas e entre os sem-teto. No Rio, demorou muito mais para circular. “A disseminação do crack é fruto de ação do vendedor de cocaína no varejo, que produz as pedras em casa. No Rio, a estrutura do tráfico não permitia essa esperteza”, afirma Myltainho Severiano da Silva, autor de Se Liga! O Livro das Drogas. Quem vendia crack era assassinado. Mas, em crise por causa de apreensões de drogas pela polícia, os chefões do tráfico passaram a permitir a venda de crack no Rio no fim da década de 1990.

Cogumelos

Existem cerca de 30 mil tipos de cogumelos no mundo, mas só 70 provocam viagens. São os cogumelos alucinógenos, com alcalóides que, quando ingeridos, dão barato. Um segredo, aliás, há tempos conhecido pelo homem: 5 mil anos atrás o cogumelo Amanita muscaria já era colhido ao pé de carvalhos no norte da Europa e na Sibéria. Quando não o encontravam, os nativos da região bebiam até a urina de renas que comiam o cogumelo, para assim conseguir o efeito entorpecente.

No Império Romano, o cogumelo utilizado era outro, o caesarea, consumido com vinho em festas que terminavam em orgias. Outra espécie, Claviceps pupurea, que nasce de parasitas do centeio, fez sucesso por acaso em regiões da Itália durante a Idade Média. Em algumas aldeias, os pães eram feitos com farinha do centeio onde o fungo crescera. Sob o efeito do cogumelo, as pessoas dançavam sem parar em festas. Os sábios, que não sabiam que era o pão que dava barato, diziam que a euforia era causada pela picada de uma aranha. Deram a essa sensação o nome de “tarantismo” (de tarântula). Dessas festas teria surgido uma dança famosa – a tarantela.

No hemisfério sul, a variedade mais comum é o psilocybe que nasce nas fezes do gado. A mesma espécie aparece na América Central, onde arqueólogos encontraram esculturas em forma de cogumelo misturadas com figuras humanas. Datam de 500 a.C. e estão em El Salvador, Guatemala e México.

Maconha

A Cannabis sativa, originária da Ásia Central, é consumida há mais de 10 mil anos. Os primeiros sinais de uso medicinal do cânhamo, outro nome da planta, datam de 2300 a.C., na China, numa lista de fármacos chamada Pen Ts’ao Ching – um estudo encomendado pelo imperador Chen Nong (a maconha servia tanto para prisão de ventre como para problemas de menstruação). Na

Índia, por volta de 2000 a.C., a Cannabis era considerada sagrada.

A planta apareceu no Brasil com escravos africanos, que a usavam em ritos religiosos. O sociólogo Gilberto Freyre anotou isso no clássico Casa Grande & Senzala, de 1933: “Já fumei macumba, como é conhecida na Bahia. Produz a impressão de quem volta cansado de um baile, mas com a música nos ouvidos”. No Brasil, até 1905, podia-se comprar uma marca de cigarros chamada

Índios. Era maconha com tabaco. Na caixa, um aviso curioso: “Servem para combater asma, insônia e catarros”.

No século 19, a erva foi receitada até para a rainha inglesa Vitória. Ela fez um tratamento à base de maconha contra cólicas menstruais, indicado pelo médico do palácio. Hoje, há uma cultura em torno da droga que se mantém com revistas especializadas, sites e ongs defendendo seu uso. A maconha tem até torneio anual, na Holanda: a Cannabis Cup, que avalia a qualidade da droga de todos os continentes. O país, aliás, não permite o comércio livre da erva. A droga pode ser vendida apenas nos coffee shops e o limite por pessoa é de 5 gramas – suficiente para 5 cigarros.

Haxixe

A pasta formada pelas secreções de THC, princípio ativo da maconha, é consumida há milênios na Ásia – na China, foram encontrados registros de seu uso medicinal em 2500 a.C. Mas foi o comércio de especiarias que fez do haxixe uma droga “global”. Acredita-se que por volta de 2 d.C. a substância seguiu para o norte da África e Oriente Médio pelas mãos de comerciantes que iam ao Oriente em busca de especiarias. Eles recebiam haxixe como cortesia nas operação de compra e venda.

O nome, no entanto, vem do árabe – hashish significa “erva seca”. Ficou conhecido assim quando Hassan bin Sabbab, líder de uma seita xiita da Pérsia no século 11, reuniu seguidores numa fortaleza para matar soldados das Cruzadas. Antes de entrar em ação, usavam a droga. Os homens de Hassan, conhecido como Velho da Montanha, eram chamados de aschinchin – alguém sob influência do haxixe. Daí derivou a palavra assassin, ou assassino.

A droga se espalhou pela Europa no século 18. O poeta francês Charles Baudelaire e seus amigos escritores Alexandre Dumas e Victor Hugo se reuniam para fumá-la. Baudelaire gostava tanto de haxixe que fazia parte de uma ordem, a Club des Haschichiens. Nos encontros, além de usar haxixe, os participantes tinham um estranho ritual: exaltar Hassan bin Sabbab. Todos vestiam roupas árabes e um dos integrantes era eleito o Velho da Montanha.

Ecstasy

Em 1912, um químico que investigava moderadores de apetite para a empresa alemã Merck desenvolveu uma droga de nome impronunciável: metilenedioxianfentamenia, ou MMDA. Experimentou, sentiu uma leve euforia, mas arquivou a descoberta. Na década de 1960, o cientista americano Alexander Shulguin procurava um remédio que estimulasse a libido. Encontrou os papéis da pesquisa da Merk e incluiu o MMDA na lista de mais de 100 substâncias que ele testou em tratamentos psiquiátricos. A que fez mais sucesso foi justamente a MMDA, que ganhou a fama de “droga do amor”. Os pacientes diziam que ela os ajudava a ser mais carinhosos – hoje, sabe-se que a droga estimula a produção de serotonina no cérebro, responsável pela sensação de prazer.

Não surpreende, portanto, o nome que fez a substância famosa: “ecstasy”, de êxtase mesmo. Em 20 anos, as pastilhas da droga estavam circulando nas ruas. Eram combinadas com o som da música eletrônica em festas chamadas raves, que atravessavam o dia e só terminavam à tarde. Em 1988, o êcstasy foi a febre no verão inglês, que acabou batizado de Summer of Love, ou “verão do amor” , mesmo nome que os hippies deram ao ano de 1967, quando eles se entupiram de LSD. A comparação não era exagerada: as duas drogas estiveram por trás de boa parte da produção cultural jovem de suas épocas.

Heroína

A substância foi descoberta em 1874, a partir de um aprimoramento na fórmula da morfina. Os trabalhos de pesquisa nessa área já haviam levado, por exemplo, à invenção da seringa, criada em 1853 por um cientista francês que procurava maneiras de melhorar a aplicação da morfina. Batizado de heroína, o novo remédio começou a ser vendido em 1898 para curar a tosse. A bula dizia: “A dose mínima faz desaparecer qualquer tipo de tosse, inclusive tuberculose”. O nome fazia referência às aparentes capacidades “heróicas” da droga, que impressionou os farmacêuticos do laboratório da Bayer.

Logo descobriram também que, injetada, a heroína é uma droga de efeito veloz, poderoso e que provoca dependência rapidamente. Viciados em crise de abstinência têm alucinações, cólicas, vômitos e desmaios. Assim, a heroína teve sua comercialização proibida em 1906, nos EUA. Em 1913, o fabricante alemão parou de produzi-la, mas ela manteve intensa circulação ilegal na Europa e, principalmente, na Ásia. A droga voltou a aparecer nos EUA somente no começo dos anos 70, quando soldados servindo na Guerra do Vietnã começaram a consumi-la com asiáticos. Estima-se que cerca de 10% dos veteranos voltaram para casa viciados. .

LSD

O químico alemão Albert Hofmann trabalhava no laboratório Sandoz, em 1938, investigando um medicamento para ativar a circulação. Testava a ergotamina, princípio ativo do fungo do centeio, que ele sintetizou e chamou dietilamida. Tomou uma dose pequena e sentiu um efeito sutil. Somente em 19 de abril de 1943 Hofmann resolveu testar uma dose maior. O químico, então com 37 anos, voltou para casa de bicicleta. Teve a primeira viagem de ácido de que se tem notícia: “Vi figuras fantásticas de plasticidade e coloração”, contou. Apresentou o LSD (iniciais em alemão de ácido lisérgico) a amigos médicos. Hofmann hoje tem 100 anos e é um dos integrantes do comitê que escolhe o Prêmio Nobel.

O americano Timothy Leary se encarregou de ser um dos embaixadores do LSD pelo mundo. Doutor em psicologia clínica de Harvard, ministrava a droga para seus pacientes e a recomendava a alunos do campus – até ser expulso pela universidade, em 1963. Na época a cidade de São Francisco começava a se tornar capital da cultura hippie. Uma das principais atrações eram shows de rock para uma platéia encharcada de ácido fabricado em laboratórios clandestinos. Os freqüentadores pregavam o amor livre, a vida em comunidade e veneravam religiões orientais. O lema deles você conhece: “paz e amor”.

Em 1967, o movimento era capaz de reunir até 100 mil pessoas num parque. As farras lisérgicas muitas vezes acabavam em sexo coletivo. Não é à toa que o ano tenha entrado para história como Summer of Love, o “verão do amor”.

Ópio

O suco leitoso tirado da papoula branca é consumido há cerca de 5 mil anos no sudoeste da Ásia, em ilhas do Mediterrâneo e no Oriente Médio. Fez parte até da mitologia grega – era usado para venerar a deusa Demeter. A lenda dizia que, após ter sua filha Proserpina raptada, Demeter passou a procurá-la. Encontrou e comeu sementes de papoula, diminuindo a dor da perda. A imagem da deusa, então, ficou ligada à papoula – e rituais em sua homenagem incluíram o uso da droga. O nome ópio vem do grego opin, ou suco. A chegada da civilização romana não diminuiu a sua popularidade, inclusive para fins medicinais. “O ópio era a aspirina de seu tempo. No ano 312, havia na cidade de Roma 793 estabelecimentos que o distribuíam”, afirma Antonio Escohotado, em O Livro das Drogas.

Na época das navegações, a Inglaterra chegou a monopolizar a venda mundial de ópio. Entre os principais importadores estava a China, apesar de o produto ser proibido lá desde 1729. A luta contra o contrabando levou a um conflito militar entre os dois países, que durou de 1839 a 1842 e ficou conhecido como Guerra do Ópio. Os ingleses venceram e obrigaram a China a permitir o comércio da droga. Ficaram também com o território de Hong Kong, que só foi devolvido em 1997.

Para saber mais

Pequena Enciclopédia da História das Drogas e Bebidas - Henrique Carneiro, Elsevier, 2005

O Livro das Drogas - Antonio Escohotado, Dynamis, 1995

Se Liga! O Livro das Drogas - Myltainho Severiano da Silva, Record, 1997

Álcool e Drogas na História do Brasil - Org. Renato Pinto Venâncio e Henrique Carneiro, Alameda e PUCMinas, 2005

http://www.neip.info/

http://www.erowid.org/psychoactives/psychoactives.shtml

Por que gostamos tanto de drogas?

Por que gostamos tanto de drogas?

Elas detonam neurônios, geram dependência, acabam com a sua vida. Mas imitam as moléculas que seu cérebro cobiça

por Texto Marília Juste

Pelo mesmo motivo que gostamos de comer, de sexo e de exercício físico. Nosso organismo, não por acaso, é particularmente sensível às sensações de prazer, e nosso cérebro foi configurado para sempre querer mais do que é gostoso. O que não parece nada mau, não é? O problema foi que o feitiço virou contra o feiticeiro quando as drogas e seus efeitos colaterais deram as caras.

Essa “configuração cerebral” é chamada de sistema de recompensas e foi muito importante para nossa sobrevivência ao longo dos séculos. Quando nossos ancestrais faziam sexo, era gostoso, e o cérebro os estimulava a fazer mais daquilo. Mais sexo é igual a mais oportunidades de reprodução, a mais descendentes e a mais chances de sobrevivência para a espécie como um todo. Quando eles comiam, esse sistema os estimulava a comer mais. Mais comida é mais saúde e maior resistência a doenças e acidentes. E, na natureza, comida é algo escasso. O prazer, então, é só um suborno para continuar praticando o que faz bem.

Esse estímulo na verdade é uma substância chamada de endorfina, que tem o adequado apelido de “hormônio do prazer”. Esse processo todo é bastante primitivo biologicamente e pode ser encontrado mesmo em espécies bem menos complexas que um ser humano, tal como os insetos.

As drogas que viciam agem exatamente nesse mecanismo do cérebro para nos fazer cair na armadilha dos entorpecentes. Elas alteram a função do sistema de recompensas, fazendo o organismo parar de se preocupar com o próprio bem-estar e só dar atenção à alimentação do vício. Todas as fontes de prazer deixam de ter a mesma importância e só o consumo do entorpecente passa a ser agradável e desejável. Quem não entende a dificuldade que um dependente tem de abandonar o seu vício pode imaginar o seguinte: o quanto você sofre quando fica sem comida? Se estivesse morrendo de fome, o que seria capaz de fazer por comida? É uma sensação parecida com o que a ausência da droga causa em quem está viciado.

São diversas as substâncias que causam essa deturpação de um mecanismo com função tão nobre. É o caso da cocaína, do álcool, da nicotina, da heroína e também da maconha. O LSD, no entanto, apesar de causar danos cerebrais consideráveis, não age nessa área e, portanto, não vicia.

Drogas Internas

O controle da liberação de endorfina quando comemos, fazemos sexo e exercícios, dormimos ou mesmo nos protegemos do frio é feito por um sistema cerebral conhecido como sistema opióide. O nome vem do ópio, porque essa droga afeta exatamente os mesmos receptores, ou “fechaduras químicas”, dos neurônios. Essa é uma característica comum a muitas outras drogas: provavelmente por acaso, sua composição química e a estrutura de suas moléculas “encaixa” de forma suficientemente precisa em receptores dos neurônios de humanos e outros animais afetados por elas. Não é que os neurônios tenham sido “fabricados” para absorver drogas: o que acontece é que, por azar, elas são parecidas com moléculas que o organismo produz naturalmente e que funcionam como sinalizadoras no cérebro, além de cumprir outras funções, em certos casos.

O mesmo fenômeno levou à descoberta do chamado sistema endocanabinóide. É isso mesmo: todo um conjunto de sinalizadores e receptores que se assemelham ao princípio ativo da Cannabis sativa, a popular maconha. O sistema dos endocanabinóides está tanto associado a sensações de bem-estar quanto ao controle da fome, o que explica a “larica”, ou fome exacerbada, de quem fuma um baseado. Por isso, remédios contra obesidade estão começando a explorar essa propriedade.

A cafeína é a substância psicoativa (ou seja, com efeitos sobre o sistema nervoso) mais consumida do mundo. Em média, toda pessoa toma uma dose de cafeína por dia no planeta.

A forma é a função

Conheça as drogas fabricadas no interior do seu cérebro

Anandamida

Uma das principais substâncias do sistema endocanabinóide, ou seja, é um análogo do princípio ativo da maconha. Tem funções no sistema nervoso e no sistema imune (de defesa) do organismo.

Dopamina

Essencial para uma série de funções neuronais, a dopamina fica em falta no cérebro de pessoas com mal de Parkinson. Um dos efeitos do LSD afeta os receptores dessa molécula.

Endorfina

Molécula cujo nome quer dizer “morfina endógena”, ou seja, produzida pelo próprio organismo. Sua ação é a mesma das drogas da família do ópio, ligadas ao famoso sistema opióide.

Sérgio Cabral: pela liberação das drogas mas sob condições.


Foto: Evandro Teixeira
Cabral: "Brasil não pode virar a Walt Disney das drogas" Foto: Evandro Teixeira

Leandro Mazzini, Marcelo Migliaccio, Jornal do Brasil

RIO - De bem com a vida, mais magro para a maratona eleitoral de 2010, saboreando a vitória do Rio para os Jogos de 2016 e a última novidade – uma maior fatia de royalties para o estado no pré-sal – é difícil ver Sérgio Cabral Filho aborrecido com algum assunto. Detalhista, desde o monograma SCF na camisa aos comentários e gestos, o governador parece em ritmo de campanha: tem respostas prontas para temas espinhosos. Nesta entrevista ao JB, ele se sente à vontade para passear por cenários que rascunha e por assuntos polêmicos. Admite dificuldades em contratar policiais e, como comandante de um estado cuja maior chaga é a guerra entre a polícia e o tráfico, deixa uma polêmica: é a favor da liberalização das drogas, “desde que haja um pacto internacional”. Garante que o PT estará em sua chapa, volta a defender autonomia federativa para os estados e revela que vai dobrar a verba do fundo para o meio ambiente, com o dinheiro do pré-sal.

O senhor pretende deixar o governo com quantas UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora)?

Esse é um projeto que deu certo. Havia uma polícia que não atuava nessa filosofia que estamos atuando, tinha uma politização da polícia, extravagante; acordo com os milicianos; acordo com os traficantes, quer dizer, uma barbárie instalada no Rio. Você não desmonta isso da noite para o dia, você tem um número de efetivos, um número limitado, e a gente tem uma filosofia de que nas UPPs se coloca só policiais novos. Você tem que fazer concurso, o salário não é bom ainda. Melhorou, porque em três anos demos reajuste. O prefeito Eduardo Paes vai dar gratificação para quem está na UPP, mas a gratificação é para quem está na rua, para todos. Mas você ainda não consegue atrair para a polícia um número que nós desejaríamos.

Toda vez há um enfrentamento, como no caso do helicóptero, surgem as pessoas defendendo a tese de que a liberação das drogas reduziria esse embate que se tem no Rio. Qual é a sua opinião sobre isso?

A lógica da legislação sobre droga tem que ser discutida nos foros internacionais. Eu diria que basicamente a Organização das Nações Unidas e a Organização Mundial da Saúde, a OMS. Deve começar pela OMS, (debate) dos seus prós e contras. Acho que nessa lógica da proibição pela proibição, o resultado é uma quantidade de mortes muito maior do que se nós tivéssemos uma legislação mais inteligente, mais voltada para a vida como ela é. Essa legislação não está no arcabouço do estado de direito democrático, ela está no arcabouço comportamental, de valores, arraigados na sociedade internacional, a começar pelos Estados Unidos da América, que é a vanguarda do atraso nessa concepção atual no mundo. Hoje você já tem em muitos países europeus uma outra visão, e em alguns estados americanos - porque os Estados Unidos têm um modelo que eu sou favorável no Brasil, de autonomia federativa, onde os estados legislam sobre as suas vidas. Essa é a grande reforma do Brasil. Esse pacto federativo. Tudo isso pode vir no bojo de uma reforma da federação. A realidade econômico-social-criminal do Texas não é igual à de Ohio. No Brasil, o Rio tem a mesma legislação do Acre, quando o Acre tem problemas ambientais que o Rio de Janeiro não tem e que, portanto, teria que ter uma legislação específica. Você vai ver a Constituição, está tudo concentrado em Brasília, no Congresso Nacional. Essa é a grande desgraça do Brasil. Esse é um tema que o Brasil profundamente deve discutir, que não está na agenda da imprensa, não está na agenda de lugar nenhum.

O senhor foi senador. Debateu isso lá no Congresso?

Não só debati como fiz propostas, há projetos meus tramitando lá.

Tirando o debate político, o cidadão Sérgio Cabral é a favor da liberalização das drogas?

Sou favorável à liberação das drogas, desde que seja um pacto internacional. Senão pode o Brasil virar a Walt Disney das drogas.

Isso é um debate para a OMS?

É um debate para a OMS, tem que ser visto com toda uma estrutura legal em termos de saúde pública, de prevenção. Hoje, o que acontece? O usuário tem crises e não há uma política pública. É como o aborto, que hoje ocorre. Segundo dados do SUS, 200 mil mulheres, por ano, depois de fazer o aborto ilegal, vão ao Sistema Único de Saúde, um hospital público, para reparar danos causados por essas cirurgias. O cálculo do ministro da Saúde é que isso signifique 20% do total. O total é de 1 milhão de abortos por ano. Ora, seu sou a favor do aborto? Claro que não. Quem é a favor do aborto? Ninguém! Sou a favor do direito da mulher ter uma estrutura pública. Tenho cinco filhos, amo meus filhos, Deus me livre, não torço para que nenhuma mulher faça aborto. Agora, por favor, a realidade, a vida como ela é, é que 1 milhão de mulheres, todo ano, fazem aborto. Ora, a mulher da classe média alta vai numa clínica clandestina, onde as autoridades daquela localização sabem que ela existe e sabe Deus como é que mantém aquilo. Agora, as meninas e as mulheres da pobreza, que é a grande maioria do povo brasileiro, vão onde, fazem onde?

O senhor disse que não há política pública em algumas situações de tratamento de drogas, mas aqui no Rio o crack está entrando pesado e há fatos graves.

Em São Paulo já entrou, infelizmente, há dois anos...

E está vindo para o Rio... O Rio tem condições de bancar o tratamento para essas pessoas? O pai do rapaz viciado que recentemente matou uma amiga acusou o estado de não dar suporte para internação.

Não é verdade. Há várias clínicas com as quais o governo do estado faz convênios. A gente busca conveniar clínicas e instituições que já fazem tratamento. Vou dar um exemplo de um trabalho lindo que a gente faz com um pastor da Assembleia de Deus, o Isaias Maciel. A gente está fazendo um trabalho com ele e várias clínicas, e a prefeitura do Rio também começou a fazer. Um trabalho de repressão.

(Colaborou João Batista de Araújo)

21:57 - 14/11/2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Charge & Drogas


Droga: Descriminalização não aumentou consumo nem tornou Portugal destino de narcoturismo


Expresso Digital
Lisboa, 05 Nov (Lusa) - O relatório do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência confirma que não houve aumento do consumo após a descriminalização nem Portugal passou a destino de narcoturismo, disse hoje o presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT).
Em declarações à agência Lusa, a propósito do relatório do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência (OEDT) hoje divulgado, João Goulão salientou que "os dados, desde a descriminalização até agora, apontam para uma evolução positiva do fenómeno da droga e da toxicodependência" em Portugal.
"Aquilo que se constata é que Portugal não se transformou num destino para o narcoturismo nem houve um disparar dos números da toxicodependência na sequência da descriminalização. Estas eram as bandeiras agitadas pela oposição, nomeadamente o CDS, com Paulo Portas a dizer que iria ser o paraíso dos drogados de todo o mundo", recordou João Goulão.

Jack Cole - Ex -policial : " A solução é liberar todas as drogas"

29/10/2009 - 15:01 - Atualizado em 30/10/2009 - 20:06
"A solução é liberar todas as drogas"
Ex-policial americano que prendeu mil traficantes como infiltrado diz por que reprimir não resolve
NELITO FERNANDES - REVISTA ÉPOCA
Ele passou 14 de seus 71 anos infiltrado em grupos de traficantes de Nova Jersey, nos Estados Unidos. Hoje, anda com um broche em que está escrito “Policiais dizem: legalizem as drogas. Pergunte-me por quê”. Se você perguntar, ele lhe dará uma série de estatísticas. Se a conversa durar um pouco mais, Cole contará sua história de vida. Em sua última missão, Cole saiu de casa quando a filha tinha 12 anos e só tornou a vê-la aos 14. Revoltada e acreditando ter sido abandonada, ela só voltou a falar com o pai quando fez 21 anos. Hoje, Cole dirige uma ONG que reúne juízes, promotores e policiais em 76 países, todos a favor da legalização das drogas. Nesta entrevista a ÉPOCA, ele lista seus motivos para defender a liberalização – e as razões para o fracasso da política antidrogas dos EUA.

ENTREVISTA - JACK COLE

QUEM ÉTenente aposentado da divisão de narcóticos da polícia americana. Tem 71 anos. É casado e tem três filhos O QUE FEZTrabalhou por 14 anos como agente infiltrado para combater o tráfico de drogas em Nova Jersey. É um dos fundadores e atual diretor executivo da ONG Law Enforcement Against Prohibition (Leap), uma organização que reúne policiais, juízes e promotores pela liberação das drogas. Percorre o mundo dando palestras
ÉPOCA – Como é a vida de um infiltrado no tráfico? Jack Cole – Não é tão emocionante e heroico quanto a gente vê nos filmes. É um trabalho que ninguém deve fazer por mais de cinco anos. Isso foi o que meu superintendente disse, mas eu acabei ficando 14 anos. É o tipo de serviço que faz muitos estragos na cabeça do infiltrado. Pela ótica de quem declara guerra ao tráfico, faz sentido. Porque toda guerra precisa de um espião. Eu era o espião dessa guerra que não estamos vencendo e não vamos vencer.
ÉPOCA – Como sua família reagia? Cole – Estou em meu terceiro casamento, e dois deles acabaram enquanto eu era infiltrado. Não preciso dizer mais nada. Ninguém além de sua mulher pode saber o que você faz, então você vive uma vida paralela, de que seus filhos não sabem. Em alguns casos você aluga uma casa, passa parte do tempo lá e volta para a sua casa de verdade todas as noites. Em outros, não pode nem voltar para casa. Em minha última missão, eu saí de casa quando minha filha tinha 12 anos, fui para outro Estado, vivi com bandidos e só voltei quando ela tinha 14 anos. Ela achou que eu tinha abandonado a família e só voltou a falar comigo quando fez 21 anos. É devastador.
ÉPOCA – Como entrava nas quadrilhas? Cole – Não eram exatamente quadrilhas. Na maioria das vezes eram pessoas como nós, e a única diferença deles para nós é que eles decidiram colocar algo em seu corpo que nós não colocamos. A maioria nem sequer usava arma. Era gente que pegava drogas e repassava para os amigos, e muitos nem tinham lucro com isso. Meu trabalho era baseado em alvos. Eu tinha de me transformar no melhor amigo do alvo, a ponto de ele me fazer confidências que mais tarde seriam usadas contra ele. Então eu passava a ir aos lugares que eles frequentavam, pagava uma bebida, puxava um assunto ou tentava comprar uma droga. Depois era só ir às reuniões, às festinhas, onde eles perguntavam quem queria ficar doidão.
ÉPOCA – O senhor chegou a ficar amigo de verdade de algum traficante? Cole – Sim, claro. Por que não ficaria? Como eu disse, são pessoas normais, como nós, que em algum momento resolvem se drogar. Muitos deles, para sustentar o vício, resolvem vender para amigos. Você vira confidente, mas faz também confidências. Você pensa o tempo todo que está sendo um traidor, mas tem de ficar firme até o final da operação. Em geral, prendíamos todos de uma vez, e eu era preso também.
ÉPOCA – Depois de serem presos, eles sabiam quem era o traidor? Cole – Na hora da acusação, eu tinha de testemunhar. Eles tinham o direito de saber como foram presos. Minha presença os fazia se declarar culpados, porque sabiam que eu tinha conhecimento de tudo. Quando alguém ia preso, era como se uma parte de mim fosse presa também, porque eu dividi minha vida com aquela pessoa. Uma vida falsa, mas em determinado momento você não sabe mais o que é verdade e o que é falso, porque você vive aquilo. Não esqueço o olhar de decepção deles quando me viam no corredor do tribunal. É um trabalho nojento. O pior é que hoje vejo que nosso trabalho na década de 70 acabou provocando mais tráfico e bandidagem.
ÉPOCA – Por quê? Cole – Uma das bandeiras de Richard Nixon para se eleger (à Presidência dos Estados Unidos, em 1968) foi a guerra total ao tráfico. Quando eu entrei para a polícia, em 1964, meu departamento tinha 1.700 policiais e sete deles trabalhavam na divisão de narcóticos. Em 1970, eram 76. Eles multiplicaram por 11 o número de policiais nas divisões de narcóticos. Só que não havia tanto tráfico assim. Naquela época, só 2% dos americanos usavam drogas. Hoje, são 16%. Era difícil mesmo achar traficantes, principalmente em cidades como Nova Jersey. Transformaram um terço dos policiais em infiltrados, para prender pequenos traficantes de bairros menores e justificar a verba. Então começamos a prender, prender e prender. Policiais mentiam sobre a quantidade de droga apreendida, porque quanto mais você apreendia maior o salário. A chefia de polícia chamava a imprensa, mostrava os presos e dizia: “Seu bairro está cheio de traficantes”. Assim conseguiam verba.
ÉPOCA – Por que o senhor faz uma relação entre o número de presos naquela época e o aumento do tráfico hoje? Cole – Prendemos gente que tinha recuperação, que não era exatamente um traficante. Só eu prendi uns mil. Gente comum que foi para a cadeia e lá conheceu traficantes de verdade, fez um verdadeiro curso intensivo de tráfico e outros crimes. E não se recuperam quando saem de lá. A condenação é uma mancha que não sai de sua vida jamais. Quem vai dar emprego? A alternativa é traficar mais, roubar e matar, ainda mais depois de fazer amizades e se profissionalizar na cadeia. Você pode superar o vício, mas jamais vai superar uma condenação. A única forma de quebrar essa corrente é liberar as drogas.
A polícia compra uma metralhadora; o traficante, um foguete. A polícia compra um tanque; o traficante, uma bazuca
ÉPOCA – Mas, se a maconha for liberada, aparecerá alguém traficando cocaína. Se a cocaína for liberada, aparecerá alguém vendendo crack... Cole – E por que não podemos liberar tudo de uma vez? Temos de liberar todas as drogas. No momento em que liberarmos, acabará o tráfico. Ele simplesmente não vai mais precisar de armas, nada disso. As drogas seriam vendidas em qualquer lugar, e o consumidor saberia exatamente o que ele está usando, como vocês têm na embalagem de cigarro os avisos de todas as substâncias que o produto contém. Os governos deram às polícias a missão de proteger os adultos de si próprios. Isso não faz sentido. Não funcionou com o álcool, e nós levamos 30 anos para perceber isso. Na hora em que legalizamos o álcool, acabou o crime provocado pelo álcool.
ÉPOCA – Mas os problemas de saúde relacionados ao álcool persistiram. Cole – E os da droga estão aí sem o menor controle. É um equívoco achar que as pessoas vão se drogar mais e que teremos mais problemas. Portugal descriminalizou as drogas em 2001 (mais exatamente o consumo de maconha, cocaína, heroína e meta-anfetaminas) e o consumo entre jovens de 12 a 15 anos caiu 25%. Também caiu 22% entre os jovens de 16 a 18 anos. Porque as pessoas passam a saber mais sobre as drogas. É inevitável. A contaminação por aids com agulhas usadas caiu 71%; as mortes por overdose, 52%. Isso acontece porque as pessoas não precisam ir para os guetos e dividir agulhas. Se você legalizar a droga, sabe o que vai acontecer no dia seguinte nos morros do Brasil? Eles vão estar fora do negócio, não vão ter mais território para defender. Eles só têm armas porque precisam se defender da polícia e das outras gangues.
ÉPOCA – Só que as armas já estão lá e podem ser usadas para cometer outro tipo de crime, com ou sem drogas envolvidas. Cole – O tráfico é um dos crimes mais difíceis de combater e o que mais corrompe a estrutura policial, porque o tráfico precisa de ponto fixo e, para ter ponto, você precisa comprar a polícia. O tráfico também não tem vítima direta. Tanto o traficante quanto o viciado se beneficiam do negócio. Então você não vai ter um viciado dando queixa. Já num assalto a banco é impossível ninguém dar queixa. Para um adolescente pegar uma arma e entrar num banco é muito mais difícil. Já para ele vender drogas aos amigos, dar recado de traficantes, vigiar a polícia, é muito mais fácil. Sem contar que o traficante que serve de exemplo para ele não vai mais estar ali.
ÉPOCA – Aqui estamos discutindo colocar metralhadoras em helicópteros e aumentar a pena por tráfico. Cole – Não estou querendo me meter nos assuntos de seu país, mas não cometam o mesmo erro que nós. Você coloca uma metralhadora no helicóptero, o traficante compra um foguete. Você entra com um tanque, ele compra bazucas. E isso vai parar onde? Vão fazer um Vietnã urbano?

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Maconha no tratamento do estresse pós-traumático - Walter Fanganiello Maierovitch

7 de novembro de 2009

O presidente de Israel estará na semana que entra em visita ao Brasil e encontrará o presidente Lula.
Não entrará na pauta, seguramente, o tema da maconha no tratamento do estresse pós-traumático, objeto de pesquisa e de estudos realizados pelo israelense departamento de Psicologia da Universidade de Haifa.
Publicada ontem, a pesquisa mostra que canabinóides (foram usados os sintéticos ao invés dos naturais) poderão ser úteis em pessoas cujos distúrbios decorrentes de traumas persistem por muito tempo.
Entre os distúrbios, tratáveis com canabinóides naturais ou de laboratórios, foram relacionados a depressão, a ânsia, os ataques de pânico e os fisiológicos. E fatos violentos, causadores de distúrbios prolongados, não faltam. Por exemplo, nas pessoas que foram vítimas ou assistiram a atos terroristas, muito comuns no Oriente Médio.
A experiência foi realizada com um grupo de ratos, colocados sob estresse físico e mental. Nos ratos sob forte estresse foram injetados canabinóides sintéticos.
Segundo a pesquisa, notou-se que a maconha sintética limitava a liberação dos hormônios do estresse no cérebro, estes responsáveis pela ativação, na memória, das recordações traumáticas.
PANO RÁPIDO. Para o diretor do departamento de psicologia, “os resultados colhidos na nossa pesquisa deverão, especialmente no campo da psiquiatria, encorajar estudos sobre o uso de canabinóides em pacientes afetados pelo estresse post-traumatico”.
O uso terapêutico de propriedades contidas na erva canábica ou sintetizadas em laboratório cresce pelo planeta. Para quem conhece pacientes sob estresse pós-traumático, a descoberta em Haifa é animadora.
Wálter Fanganiello Maierovitch

A narcotregédia brasileira - Everardo Maciel para O GLOBO

Enviado por Everardo Maciel -
8.11.2009

A narcotragédia brasileira
São dispensáveis mais estatísticas para evidenciar a associação entre o narcotráfico e o vertiginoso aumento da criminalidade no Brasil, especialmente nas cidades. Não se trata, é claro, de fenômeno local, mas impressiona sua incidência cada vez mais abrangente na América Latina.
As causas desses problemas são múltiplas. Sua solução é complexa e difícil, porque não há sequer um mínimo de consenso em torno da matéria.
A violência, invariavelmente, é tida como resultado de desigualdades sociais. Essa obviedade, entretanto, não pode ser pretexto para ignorar outras causas igualmente relevantes.
Remoção ou mitigação de desigualdades sociais não é processo rápido, nem simples. É, pois, completamente equivocado e temerário condicionar a erradicação da violência à consecução daquele objetivo. Elas são questões autônomas, conquanto correlatas.
O caos urbano brasileiro oferece contribuição significativa para a violência e o narcotráfico. Adensamentos urbanos, tristemente marcados pela proliferação de habitações subnormais, são terrenos férteis para o desenvolvimento das atividades criminosas. Neles tudo falta, desde os serviços públicos aos títulos de propriedade, daí passando ao completo desrespeito às limitações ecológicas. A ausência do Estado e da lei é a causa primeira dessas zonas de exclusão social.
A longa extensão das fronteiras brasileiras é um forte atrativo para as atividades ilegais. A inexistência de ações vigorosas das Forças Armadas e da Polícia Federal, carentes de efetivos e armamentos, e a timidez dos serviços de inteligência as converte em convite permanente para o descaminho e contrabando, especialmente de armas e drogas.
A autorização legal para abate de aeronaves clandestinas, que se recusam cumprir ordem de pouso, veio a passo tardo. É ao menos ingenuidade transferir das fronteiras para as favelas o enfrentamento do contrabando de armas.
Os amargores do período autoritário fizeram vincular a imagem das corporações militares e policiais à arbitrariedade, à tortura e à truculência. A persistência dessa atitude preconceituosa levou o Estado a tratar aquelas corporações com menosprezo e mesquinhez, debilitando sua capacidade operacional e espírito de corpo. A conseqüência mais dramática dessa realidade foi o aumento dos níveis de corrupção, especialmente nas unidades policiais em contato próximo com o crime organizado.
Sem repressão enérgica e inteligente, sem reforma do sistema prisional que usualmente converte penitenciárias em albergues do crime e sem mudanças na legislação que admite progressividade de pena para traficantes contumazes, a violência só tende a crescer.
Os esforços, ainda que louváveis, de organizações não governamentais ou as iniciativas educacionais visando prevenir o consumo de drogas apresentam resultados modestíssimos ante a dimensão do problema.
O consumidor de drogas é um doente, merecedor de cuidados especiais. Não pode ser tido como traficante tampouco encarado com leniência. Seu tratamento deve ser obrigatório, como foi a vacinação no começo do século XX, a despeito das revoltas contra a medida – hoje, vistas como expressão da mais completa ignorância.
A obrigatoriedade do tratamento impõe verdadeira mudança de foco na educação contra o uso de drogas, revisão nos conceitos de atenção à saúde mental, aumento na disponibilidade de leitos especializados em hospitais públicos, pronta oferta de atendimento ambulatorial e novas formas de abordagem do dependente pela autoridade policial.
Nesse contexto, há os que pregam a completa descriminalização das drogas, brandindo exemplos de outros países. A descriminalização, pergunto, alcançaria qualquer droga? Teríamos quiosques de maconha, barzinhos especializados em crack, importadoras de cocaína premium? Pretender enfrentar o narcotráfico com tal providência é evidência de estultice ou de relativismo moral.
Brasileiros, em proporção cada vez maior, estão sendo dizimados em uma guerra civil somente destacada por episódicos festins mediáticos. A juventude, especialmente a que vive na periferia, sofre a miséria da falta de esperança. São indecentes a postura conformista e os rompantes de auto-engano da sociedade brasileira.
Urge romper essa inércia. O Governo Federal precisa montar um programa amplo e permanente de combate à violência e ao narcotráfico, abrangendo as múltiplas causas e mobilizando todos os meios, a exemplo do que fez Osvaldo Cruz na cruzada contra a febre amarela. Neste País, não existe questão mais prioritária que essa.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Imagens & Drogas







A nova lei de drogas e o usuário


5.Nov.2009 José Carlos De Oliveira Robaldo*Em face do novo tratamento jurídico-penal que a nova Lei de Drogas - assim denominada a Lei nº 11.343, de 08 de agosto de 2006 – deu ao usuário de drogas ilícitas (maconha, cocaína, crack etc), tem demandado inúmeras discussões/polêmicas, especialmente quanto ao seu caráter proibitivo, isto é, se a mesma pune ou não criminalmente o usuário de drogas? A resposta é positiva, pune sim o usuário. Isso significa, em outras palavras, que o usuário continua sendo criminalizado e consequentemente penalizado/responsabilizado penalmente. É oportuno o esclarecimento justamente para evitar que o usuário, em face de algumas matérias publicadas pela imprensa, suponha que o uso dessas drogas esteja "tudo liberado", como se diz popularmente. Não está não! Usuário, não vá nessa! Enganam-se aqueles que pensam que acabou a punição em relação ao usuário de drogas ilícitas.Eis o que prescreve o art. 28, da aludida lei: "Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas (grifei):I - advertência sobre os efeitos das drogas;II - prestação de serviços à comunidade;III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo".A confusão está no fato de que o Brasil, por meio da nova lei, por uma questão de política criminal e seguindo tendências dos países civilizados e até mesmo às recomendações da ONU (Organização das Nações Unidas) em relação ao usuário de drogas, abriu mão da pena de prisão (apenas desta) prevista na lei anterior (a que foi revogada). Na realidade, dentro dessa nova filosofia, o legislador tinha duas opções, a saber, descriminalizar o uso ou despenalizá-lo (não punir com pena de prisão). A opção foi pela última. O acerto ou não dessa mudança de combate ao consumo de drogas, tem sido objeto de profundos debates. Em um linguajar puramente técnico isso significa que o uso de droga, embora, despenalizado em relação à pena de prisão (não se aplica a penda de prisão), não foi descriminalizado, o que significa, por conseguinte, que tal comportamento permanece proibido/ilícito, sujeito às punições/penas (penas alternativas) acima descritas. Outra discussão que tem surgido é quanto à possibilidade de a polícia prender o usuário quando é encontrando fazendo uso da droga? A polêmica nem deveria existir porque a resposta é muito simples. A polícia não pode prender o usuário em flagrante delito (porque a pena não é de prisão), mas isso não significa que o mesmo não possa ser conduzido (o que deverá ser) - até mesmo contra a sua vontade - à delegacia de polícia competente para que a autoridade policial (delegado) tome as providências técnicas cabíveis (lavratura de boletim de ocorrência, perícias, encaminhamento à justiça para a aplicação da lei).Agora, o fato de não caber prisão em flagrante (nome técnico) não significa que a polícia não deva fiscalizar e coibir o uso de droga, isso é seu dever, aliás, nesse aspecto, a polícia tem sido muito passiva. A lei de drogas está em vigor e deve ser cumprida, sob pena de prevaricação (crime praticado por funcionário público no exercício da função).Particularmente entendo que a nova lei de drogas andou bem em não punir o usuário de drogas ilícitas com pena de prisão, mas também andou corretamente em não descriminalizá-la (manter a proibição). Na minha avaliação, sem considerar os terríveis males que a droga causa às pessoas, a população brasileira não está culturalmente preparada para a liberação total do uso de certas drogas.Insisto, para finalizar, que o uso das drogas ilícitas relacionadas na nova lei acima mencionada, continua sendo crime, passível das penas acima apontadas. Entretanto, nada adianta se a execução dessas penalidades não for fiscalizada adequadamente. Do contrário, a "vaca vai para o brejo". *Procurador de Justiça aposentado. Mestre em Direito Penal pela Universidade Estadual Paulista-UNESP. Professor universitário. Representante do sistema de ensino telepresencial LFG, em Mato Grosso do Sul. Membro da Academia de Letras Jurídicas do Estado de Mato Grosso do Sul. E-mail jc.robaldo@terra.com.br

Descriminalização não aumentou o consumo

Esquerda.net
05-Nov-2009
A descriminalização do consumo de drogas não aumentou o consumo e nem fez disparar os números da toxicodependência em Portugal, são as principais conclusões do relatório do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência (OEDT). Segundo o presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT), João Goulão, não se confirmam os receios iniciais de que essa abordagem suscitasse um aumento dos níveis de consumo.
Goulão afirma ainda que "aquilo que se constata é que Portugal não se transformou num destino para o narcoturismo nem houve um disparar dos números da toxicodependência na sequência da descriminalização. Estas eram as bandeiras agitadas pela oposição, nomeadamente o CDS, com Paulo Portas a dizer que iria ser o paraíso dos drogados de todo o mundo".
O presidente do IDT destaca que os "bons resultados" são consequência de um conjunto de políticas nas áreas da prevenção, tratamento, redução de danos, reinserção e trabalho de dissuasão, "num quadro genérico de descriminalização que tornou as medidas muito mais harmónicas".
A descriminalização do consumo de droga em Portugal ocorreu há oito anos e rapidamente passou a ser considerada um caso de sucesso internacional. Desde de 2001 a posse para consumo próprio (de cannabis, cocaína, heroína e metanfetaminas) passou a ser considerada como toxicodependência, e o consumidor, ao invés de incorrer em pena de prisão, passou a ser encaminhado as comissões comissões de Dissuasão da Toxicodependência (CDT).
Embora os números tenham apresentado um ligeiro decréscimo, Portugal continua no topo da lista em relação ao número de novos casos de contaminação de VIH/sida entre os consumidores de droga injectada.
O relatório pode ser consultado aqui

Ineficácia no combate à violência coloca em pauta a revisão da Lei Antidrogas

Descriminalização - O GLOBO
Ineficácia no combate à violência coloca em pauta a revisão da Lei Antidrogas
Publicada em 05/11/2009 às 10h03mThais Lobo


RIO - As dificuldades no combate à violência, principalmente quando ligada ao tráfico de drogas, colocaram em pauta a revisão da Lei Nacional Antidrogas, sancionada em 2006 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad) tem discutido soluções para tentar impor penas mais duras aos chefes do narcotráfico, ao mesmo tempo em que tira o foco dos pequenos traficantes. Entre as propostas, que deverão ser discutidas até o fim de novembro, a descriminalização do uso de entorpecentes é apontada como um dos caminhos para solucionar a questão.
O grupo de trabalho do Conad é formado por cerca de 20 conselheiros do governo e da sociedade civil. O deputado Paulo Teixeira (PT-SP), um dos interlocutores do governo no conselho, pretende apresentar um projeto de lei com as diretrizes do Conad. Na semana passada, Teixeira defendeu, em um discurso no plenário da Câmara, a legalização da maconha e o plantio para consumo pessoal.
" Todo o investimento tem sido para a repressão de uma guerra que já perdemos "
Para o deputado, é preciso descriminalizar o uso de drogas, transferindo da esfera penal para a área da saúde. Teixeira defende que um segundo passo seria legalizar e restringir o comércio. Os recursos, obtidos com o pagamento de impostos, seriam destinados, então, ao tratamento de dependentes químicos.
- Reconheço que temos um número alto de consumidores, e isso tem que ser equacionado. O problema é que a política atual não está diminuindo o consumo. Sou a favor de uma regulação muito restrita. Hoje vejo dificuldade em legalizar, então proponho descriminalizar uso e o porte quantidades para uso pessoal, além de regular o autoplantio - sugeriu.
O deputado afirma ainda que é preciso diminuir a violência social na busca de drogas:
- Esse mercado é intrinsecamente violento porque está na ilegalidade. A ilegalidade faz com que a droga tenha lucros astronômicos e a pessoas se armem para proteger seu produto, seu território. De certa forma, estão conseguindo desmoralizar a polícia. Todo o investimento tem sido para a repressão de uma guerra que já perdemos.
O próprio presidente Lula admitiu nesta semana que a atuação do governo no combate às drogas no Brasil não tem dado resultado . Levantamento do Ministério da Justiça em parceria com universidades também mostrou que 66,4% dos condenados por tráfico no Rio não tinham antecedentes criminais . Nas varas federais, 80,6% dos réus também estavam nessa condição.
Para o secretário nacional Antidrogas, general Paulo Roberto Uchôa, a aplicação da lei é um dos principais pontos que precisam ser melhorados. Ele ressalta que é necessário tornar mais eficiente a prisão de traficantes:
- Há levantamentos sobre a aplicação da lei que mostram que o preso pelo tráfico de drogas era fundamentalmente o pequeno traficante. É preciso estudar e propor soluções para atualizar a legislação - afirmou Uchôa, ressaltando que a atual legislação já deu um importante passo ao diferenciar as penas atribuídas a usuários e traficantes.
" Sem a reforma da polícia, nem a repressão, nem a liberalização são possíveis "
O deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) também acredita que é preciso redirecionar o foco:
- Sempre fui favorável à descriminalização, mas um aspecto que tem que ser cumprido: a reforma da polícia. Enquanto não tivermos isso bem resolvido, nem a política de repressão, nem a de liberalização são possíveis. Antes de discutir os detalhes (da legislação), é preciso discutir a reestruturação da polícia - afirmou Gabeira.
A proposta poderá, no entanto, enfrentar dificuldades de aprovação no Congresso, como admite o deputado Paulo Teixeira:
- Um projeto como este só será viável se houver um acordo entre as principais forças políticas. A discussão não pode ficar no plano do projeto parlamentar, a sociedade precisa encarar esse problema como uma questão de fato - afirmou Teixeira.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Senador Valter Pereira (PMDB-MS) alerta para "riscos desconhecidos" da maconha



Ao comentar em Plenário, nesta terça-feira (3), matéria publicada pelo jornal Correio Braziliense sobre o cultivo de "supermaconha" no Brasil, o senador Valter Pereira (PMDB-MS) se manifestou contrário a descriminalização do uso da droga no país.
Segundo Valter Pereira, a reportagem do Correio Braziliense informando sobre a existência na Região Nordeste da variedade skank de maconha, cultivada com o emprego do agrotóxico paclobutrazol, serve de amostra dos elevados "riscos ocultos" para usuários, que podem estar associados ao consumo da droga.
O paclobutrazol é um regulador de crescimento utilizado em sistemas agrícolas com o propósito de controlar o crescimento vegetativo, estimulando a capacidade reprodutiva das plantas.O produto, de acordo com o site http://www.pesticideinfo.org, é cancerígeno e prejudicial aos sistemas nervoso e reprodutivo de humanos, além de ser tóxico para organismos aquáticos.
O uso do paclobutrazol no cultivo de maconha, de acordo com a reportagem do jornal, ao aumentar a quantidade de flores na planta, possibilita uma maior produção do princípio ativo da maconha, conhecido como TetraHidroCanabinol (THC), aumentando assim o potencial psicotrópico da droga.
- Para aqueles que sustentam que é reduzida a ação psicotrópica da maconha, para justificar a sua descriminalização, a notícia mostra que essa droga não é tão despida de perigo como apregoam. Além de portal para drogas mais pesadas, a maconha tem semeado a desgraça em todos os segmentos sociais - disse.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Núcleo de Prevenção ao Uso de Entorpecentes da Delegacia Seccional de Bragança Paulista/SP - Palestra no Colégio Morais Sales
















Alcool e cigarro são piores que maconha segundo David Nutt


Do Metro
cidades@eband.com.br
O álcool e o tabaco causam maiores danos à saúde do que algumas drogas ilegais como a maconha, o LSD e o ecstasy, afirma David Nutt, principal assessor do governo britânico para questões de drogas, em um polêmico relatório divulgado nesta quinta-feira.Fumar maconha, diz Nutt, cria um risco “relativamente pequeno” de doença mental comparado, por exemplo, aos riscos dos fumantes de contrair um câncer no pulmão. No estudo elaborado para o Centro de Estudos de Criminologia e Justiça do King’s College de Londres, Nutt defendeu um novo sistema de classificação das drogas em seu país, que seja mais condizente com os perigos oferecidos tanto pelas substâncias legais como as ilegais.“Ninguém está sugerindo que as drogas não fazem mal. A questão é a forma como é feita essa escala”, declarou.Pela proposta de Nutt, o álcool deveria figurar como a quinta droga mais perigosa após heroína, cocaína, barbitúricos e metadona. O tabaco ocuparia o nono lugar, à frente da maconha (11º), do LSD (14º) e do ecstasy (18º). O especialista criticou a decisão do governo britânico de janeiro de elevar a classificação da maconha como uma droga da classe C (que inclui tranquilizantes e analgésicos) para a classe B (que inclui anfetaminas). As drogas hoje tidas como mais perigosas são as da classe A, como heroína, cocaína, crack, LSD e cogumelos.

Deputado Paulo Teixeira (PT-SP) defende legalização da maconha e plantio para consumo pessoal

Jornal O GLOBO
BRASÍLIA - Escolhido pelo Ministério da Justiça o interlocutor do governo para revisão da lei sobre drogas, o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) defende a legalização da maconha e do porte de pequenas quantidades para consumo pessoal. Em discurso na tarde desta quarta-feira, no plenário da Câmara, Teixeira citou exemplos de países que descriminalizaram o porte de pequenas quantidades, como Portugal e México. Teixeira defendeu também o fim da pena de prisão para o viciado que, para sustentar seu vício, vira um traficante. (Leia mais sobre a discussão sobre a descriminalização da maconha no Blog Sobredrogas)
- No caso da maconha, por exemplo, é possível legalizar sim, desde que tenhamos uma regulamentação mais severa do que a que existe hoje para o álcool e o tabaco. É possível e necessário fazer uma política de transição entre o estágio atual e a legalização, com a descriminalização do uso e da posse de pequenas quantidades para o uso pessoal. Defendo que o Brasil também faça a descriminalização do uso e do porte para consumo próprio - disse Paulo Teixeira.
" No caso da maconha, por exemplo, é possível legalizar sim, desde que tenhamos uma regulamentação mais severa do que a que existe hoje para o álcool e o tabaco "
O deputado afirmou que a descriminalização reduziu o consumo a maconha nos países que adotaram essa medida. Teixeira acredita que não pode dividir a questão da droga apenas entre usuário e traficante.
- É uma separação que nem sempre é simples e que pode gerar injustiças. Um usuário que em razão de uma dependência química passa a comercializar a substância para garantir o seu consumo não pode ser tratado da mesma forma do que a pessoa que busca o lucro nestas atividades, exerce controle territorial sobre regiões e usa de violência e mortes para cobrar eventuais dívidas. A pena de prisão pode provocar mais danos à sociedade do que outra forma de punição, mais eficiente para combater esta dependência e com menos impactos na vida do indivíduo.
" Um usuário que em razão de uma dependência química passa a comercializar a substância para garantir o seu consumo não pode ser tratado da mesma forma do que a pessoa que busca o lucro "
O parlamentar petista também é a favor do plantio da maconha para consumo pessoal, desde que com acompanhamento médico.
- O nosso país também precisa regular o autoplantio, com licenças concedidas pelo Ministério da Saúde e acompanhamento médico, para permitir que, as pessoas que queiram, possam consumir maconha sem ter de recorrer a criminosos para adquiri-la.
Outra proposta de Paulo Teixeira é a criação de locais de uso seguro da droga para viciados crônicos e permissão de tratamento a substituição da droga pesada por uma mais leve, como ação de redução de danos. Essas unidades seriam instaladas em hospitais.
- É importante que a comunidade médica brasileira discuta como fazer o tratamento do dependente crônico e problemático, inclusive com a análise de estratégias que deram certo em outros países, como os tratamentos de substituição de uma droga ilícita por substância lícita ou ilícita, a prescrição médica de substância ilícita e a criação de salas de uso seguro, para que as pessoas possam fazer o consumo seguro e com os efeitos da droga monitorados.
Para o deputado, a proibição do consumo de maconha leva o usuário a entrar em contato com criminosos, o que poderia ser evitado.
- Há grande procura por drogas na sociedade brasileira. Parte do consumo destas substâncias ilícitas é eventual e não apresenta risco à sociedade. São pessoas que usam maconha, por exemplo, sem que o consumo prejudique a sua vida social e produtiva. Como no álcool, existe muita gente que faz o uso responsável e uma parte que acaba tendo problemas causados pelo abuso. A proibição também provoca que estes consumidores tenham um contato com criminosos que eles próprios, em muitos casos, não gostariam de ter. Por conta desta relação, os usuários passam a ser estigmatizados pela sociedade e, em muitas situações, apontados injustamente como responsáveis pelo financiamento do crime organizado.
Paulo Teixeira afirmou que encaminhará suas propostas ao Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad), cujo secretário-geral é o general Paulo Roberto Uchôa, secretário Nacional Antidrogas.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Drogas: Mudei de Opinião

Drogas: Mudei de opinião

Mudei de opiniao, e por escrito, diz o ex-Secretário de Direito Humanos do Rio de Janeiro:

“Nos meus tempos de Policial Militar, achava que os usuários de drogas deveriam ser reprimidos com o mesmo rigor que os traficantes. Já no final de carreira tinha minhas dúvidas. Ora, por mais que os governos e a polícia se empenhassem (até as Forças Armadas foram empregadas no Rio de Janeiro) nada mudava, ou melhor, mudava para pior: mais traficantes, mais usuários, mais tiroteios, mais mortes, mais comunidades subjugadas por comandos, mais assaltos, mais bondes do mal em túneis e vias expressas. Na verdade, o que fazíamos, o que fazemos, não passa de um constante ‘enxugar gelo’...”

E continuou o coronel Jorge da Silva:

“Depois, confundindo usuários com dependentes, achei que usuários necessitavam de cuidados médicos... Incomodavam-me as campanhas de descriminalização, legalização, por dois motivos: primeiro porque via nos discursos públicos de seus defensores um incentivo ao consumo; e segundo, porque temia em caso de a liberalização se efetivar, que houvesse uma corrida desenfreada as drogas”.

O que fez o Coronel Jorge Silva mudar de opinião?

Um crescente acúmulo de fatos. Tanto no Brasil, quanto em outros países. Todos na mesma direção: a insuficiência, e para muitos, ineficiência, das atuais políticas de combate ao tráfico e à violencia.

Vejam o que ocorre nos Estados Unidos: De 1970 a 2006 foram mais de 39 milhões de pessoas presas. Pouco adiantou. Até 1970 gastaram 100 milhões de dólares no combate as drogas.

Em 2003, 70 bilhões. Estes gastos são muito mais hoje. Desde que Nixon declarou guerra ao crime e Reagan guerra às drogas, os Estados Unidos gastaram cerca de 1 trilhão de dólares.

Mas o número de viciados do país continuou exatamente o mesmo: 1.3% da população. E o negócio das drogas só fez crescer.

E se agravar: de problema de saúde pública virou problema de segurança pública. Virou guerra contra o tráfico, contrabando de armas. Mercado de drogas quanto mais reprimido, mais cresce.

Movimenta mais de 500 bilhões de dólares ao ano. Para enigma dos economistas, a repressão na oferta em vez de aumentar, baixou o preço por atacado da heroína e da cocaína. Estão mais puras.

Em 2001, o governo Talibã no Afeganistão produzia 74 toneladas de heroína. Em 2006, no quinto ano de ocupação pelos Estados Unidos, a produção do Afeganistão foi de 6.100 toneladas.

Em seu próprio território, quase 41% dos alunos de segundo grau dos Estados Unidos usam maconha.

A história da Colômbia vai na mesma direção. Tentaram de tudo, todos os presidentes, não importa o partido.

A saber: Criaram a Polícia Anti-narcóticos, o Corpo de Guarda Costas, a Brigada Anti-narcóticos do Exército, a Rede de radares da FAC, prisões de segurança máxima, Programas de desfolhamento de plantações, Tribunais especiais, fiscais especiais, novos tipos penais, incrementaram a extradição, tornaram as leis mais severas.

O resultado é que hoje com o México, a Colômbia disputa o primeiro lugar de maior produtor de cocaína do mundo. E este o quadro apresentado pelo candidato a presidente da Colômbia, Rafael Pardo, no Rio de Janeiro.

O deputado Paulo Teixeira, do PT , na sua campanha contra o proibicionismo, denuncia a atual trajetória.

A droga como um problema inicialmente individual, passou para problema de saúde coletiva, daí de segurança pública, depois criou a guerra ao tráfico, contrabando de armas, agora de violência urbana insuportável.

Algo está errado. Não se pode esperar resultados diferentes, fazendo as mesmas políticas.

Defende a descriminalização, que não é legalização, do uso e da posse de drogas de plantio para consumo pessoal, semeio ou cultivo de pequenas quantidades de substância entorpecente.

Isto é o auto-plantio. A lógica é simples. Se o proibiscionismo não diminuiu o consumo, é hora de diminuir o ilegalismo.

Os desafios a enfrentar são pelo menos dois. Primeiro inexiste experiência no mundo que assegure ser este o caminho certo e seguro.

A não ser pela boa experiência em Portugal, a legalização na Holanda não trouxe os resultados esperados.

Segundo, qualquer pesquisa de opinião vai mostrar o medo das famílias brasileiras, das classes populares, sobretudo moradores de favela, em relação a esta nova política.

Querem mais combate e mais repressão. Mas todos os estudos mostram que o aumento de pena não reduz o problema.

Aumentar a criminalização, radicalizar o proibicionismo implica em mais recurso públicos. E desvia a ação da polícia. A Polícia Federal só tem 16.000 funcionários para o Brasil todo.

Um policial de rua ganha dez vezes menos do que um membro do Ministério Público. Um delegado, ganha apenas um terço. O orçamento público não comporta o volume de recursos necessário. Onde está a saída?

Definir e implementar uma política pública, fazer uma lei nova, ou mudar a legislação existente é sempre um quebra cabeça, jogo de armar.

São muitas as variáveis. O tráfico é o SETOR DA ECONOMIA QUE MAIS CRESCE. É big business ilegal. O traficante é um empreendedor.

Quer expandir o seu negócio. Eliminar seus concorrentes. A estratégia tem que ser econômica também. Não se pode errar.

O problema tem hoje para a maioria dos brasileiros a importância da hiperinflação. Precisa-se de um Plano Real de combate ao tráfico.

Já se disse que vencer é não ter medo do futuro. Mas, neste caso, a sociedade brasileira ainda tem medo. Vai ser difícil vencer.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Experimentador de Maconha


O anúncio sobre a procura de um experimentador de maconha acabou de ser publicado na revista Westword, com redação na cidade de Denver, estado do Colorado.
Trata-se de uma revista alternativa.
A revista Westword pretende contratar um analista canábico. Ele teria a incumbência de escrever semanalmente uma coluna. Isto sobre as qualidades das ervas canábicas disponíveis no mercado.
Mais ainda, o selecionado assumiria a tarefa de aconselhar os leitores sobre os melhores produtos, já que são mais de 100 ofertas, ou seja, mais de 100 diferentes produtores.
Com efeito, o Colorado é um dos 14 estados americanos a permitir o uso de maconha para fim terapêutico. Daí, o interesse da revista em publicar uma coluna semanal.
Até o momento, 120 candidatos ao emprego já se inscreveram. Sobre remuneração, o anúncio nada informa. Também não se sabe a respeito de contagem de milhas em programas de viagens.
A procura desse emprego é grande e a revista deverá realizar uma seleção rigorosa sobre conhecimentos teóricos e práticos.
Como se sabe, a maconha vem sendo utilizada em várias terapias e é considerada um inibidor de dor eficiente nos casos de câncer.
Aviso aos navegantes.
Existe um requisito básico para concorrer ao emprego de crítico canábico, que será o primeiro na mídia escrita.
O candidato deverá ser portador de doença que justifique, por motivos terapêuticos, a utilização de maconha.
A inscrição não pode ser realizada por internet. O candidato ao posto de trabalho deve residir nos EUA.
PANO RÁPIDO. Não tive oportunidade de perguntar a opinião do jornalista Bob Fernandes, responsável pelo Terra Magazine, sobre a iniciativa da revista Westword.
–Wálter Fanganiello Maierovitch–

terça-feira, 20 de outubro de 2009

As Drogas deveriam ser classificadas de acordo com seus danos, dizem especialistas britânicos

Um estudo publicado na sexta-feira passada pelo prestigioso periódico médico britânico The Lancet pediu que as drogas - lícitas e ilícitas - sejam classificadas pelo dano que causam ao invés das divisões artificiais expressas na Lei de Mal-Uso de Drogas [Misuse of Drugs Act] da Grã-Bretanha. Como a Lei de Substâncias Controladas [Controlled Substances Act] dos EUA está escrita de uma maneira muito similar, o estudo dialoga com as políticas de drogas estadunidenses também.
O estudo, Desenvolvimento de uma Escala Racional para Avaliar os Danos das Drogas de Possível Mal-Uso [Development of a Rational Scale to Assess the Harms of Drugs of Potential Misuse], também procurava chegar a uma avaliação científica dos danos comparativos das várias substâncias, tanto lícitas quanto ilícitas. Os resultados serão surpreendentes só para aqueles que confiam nos meios de comunicação de massa para obterem o seu conhecimento sobre as drogas.
Os pesquisadores britânicos, liderados pelo dr. David Nutt, catedrático de psicofarmacologia na Universidade de Bristol, e o dr. Colin Blackmore, catedrático de fisiologia, anatomia e genética na Universidade de Oxford, avaliaram os possíveis danos das diferentes drogas em três escalas diferentes: o dano físico ao usuário causado pela droga, a tendência da droga a induzir a dependência e os efeitos deletérios do consumo de drogas nas famílias, na comunidade e na sociedade.
Quando sopesados com base no dano causado, os pesquisadores descobriram que tanto o álcool quanto o tabaco são mais nocivos do que a maconha ou o êxtase. A heroína e a cocaína foram as primeiras da lista de mais nocivas, seguidas pelos barbitúricos, pela metadona de rua e pelo álcool. Das 20 substâncias avaliadas, a maconha ficou em 11ª, atrás da buprenorfina, o sucedâneo da heroína, e à frente dos solventes. De maneira interessante, o LSD e o êxtase obtiveram muito poucos pontos na escala de danos, ficando nos 14º e 18º lugares, respectivamente. O khat, o suave estimulante do Oriente Médio, foi classificado como a menos nociva das substâncias avaliadas.
Os pesquisadores observaram que as ordenações por dano tinham pouco a ver com o jeito pelo qual as substâncias eram classificadas no Reino Unido. Embora se achasse que tanto o LSD quanto o êxtase, por exemplo, não fazem muito mal, são classificados como drogas de Classe A na Grã-Bretanha - a classificação mais séria. Igualmente, o álcool e o tabaco, embora apareçam em posições relativamente altas na escala do dano, continuam sendo substâncias legais.
A situação é parecida com a Lei de Substâncias Controladas [Controlled Substances Act (CSA, sigla em inglês)] dos EUA. Segundo a CSA, a maconha, o LSD, o khat e o êxtase são todos drogas de Classe I, uma designação que compartilham com a heroína e a cocaína, drogas muito mais nocivas. A lei sobre as drogas dos EUA designa estas drogas leves como mais perigosas do que drogas como os barbitúricos e as anfetaminas, que são drogas de Classe II, apesar de as segundas aparecerem em posições muito mais elevadas na escala de nocividade do Lancet.
Tal classificação ruim é um problema, disseram os pesquisadores. "Acima de tudo, as políticas de drogas visam a reduzir o dano aos usuários individuais, às suas famílias e à sociedade", disse o dr. Blackmore em uma declaração que acompanhava o lançamento do estudo. "Mas, atualmente, não há método racional e provado para avaliar o dano das drogas. Temos tentado desenvolver tal método. Esperamos que os legisladores percebam o fato de que a ordenação resultante das drogas difere consideravelmente da classificação delas na Lei de Mal-Uso de Drogas e que o álcool e o tabaco são considerados mais nocivos do que muitas substâncias ilegais".
"O mal-uso e o abuso de drogas são problemas de saúde de suma gravidade", disse o dr. Nutt. "A nossa metodologia oferece um arcabouço e processo sistemáticos que podem ser usados por entidades reguladoras nacionais e internacionais para avaliarem o dano das drogas de abuso atuais e futuras".
Embora os ativistas pró-reforma das políticas de drogas dos EUA elogiassem o estudo e as suas conclusões em geral, eles levantaram preocupações com a classificação da maconha diretamente no meio em termos de danos. "Parece eminentemente razoável sim, quando olhamos as leis acerca da maconha, que partimos do fato bem-documentado de que a maconha é mais segura do que o álcool e o tabaco", disse Bruce Mirken, diretor de comunicação do Marijuana Policy Project (MPP). "Como isso é o que acontece, as nossas leis atuais, tanto nos EUA quanto na Grã-Bretanha, pareceriam fazer pouquíssimo sentido. A própria noção de que as leis sobre as drogas devam manter alguma relação com os perigos reais das drogas é completamente esclarecedora", disse ele à Crônica da Guerra Contra as Drogas.
Allen St. Pierre, diretor-executivo da National Organization for the Reform of Marijuana Laws (NORML), recebeu bem as descobertas, mas também ficou preocupado com a classificação da maconha. "Eles lançaram as bases para uma melhor compreensão da classificação das drogas"Crônica. "Na pior das hipóteses, isto deve começar o processo inverso de levar a cannabis aonde deveria estar nas classificações sobre as drogas".
E onde seria isso? "Precisamos reconhecer que a maconha, o álcool, a cafeína e o tabaco são todos drogas leves", disse. "Qualquer coisa acima disso precisaria da classificação ou de algum tipo de regulação sobre a substância".
Os autores do estudo do Lancet discordaram ligeiramente. Em sua discussão da classificação científica das drogas, embora eles observassem que não há pontos de ruptura claros na escala de dano relativo, eles sugerem que mesmo um sistema de três níveis como o que está em vigor na Grã-Bretanha podia ser ordenado mais eqüitativamente agora. "Se uma classificação de três categorias fosse ser retida", escreveram, "uma possível interpretação das nossas descobertas é a de que as drogas com pontuações de dano iguais e superiores às do álcool poderiam ser de classe A, a cannabis e aquelas que estão abaixo poderiam ser de classe C e as drogas intermediárias poderiam ser de classe B. Nesse caso, é saudável ver que o álcool e o tabaco - as substâncias não classificadas mais usadas em geral - teriam classificações de dano comparáveis com as drogas ilegais das classes A e B, respectivamente”.
A colocação da maconha como se fosse mais nociva do que drogas como o LSD e o êxtase irritou um pouco os porta-vozes do movimento pró-maconha. "Eles a classificaram muito alto pela dependência, mas a dependência da maconha tende a ser muito suave", disse Mirken do MPP. "É possível dizer que a dependência de uma droga que não for nociva não é tão prejudicial como a dependência de uma for mais nociva. Não se estes pesquisadores fizeram essa distinção".
"Eles puseram peso demais no dano social que eles atribuem à cannabis e, notavelmente, no nível de intoxicação", disse St. Pierre da NORML. "Eles a classificaram como se fosse ligeiramente mais tóxica do que o LSD, mas fumar cannabis, mesmo na sua forma mais potente, não pode ser comparado com uma experiência de seis horas de LSD. Suspeito que os editores do Lancet estejam sendo deferentes demais à idéia de que, agora, a cannabis é tão potente quanto essas drogas outras".
"Posso ter algumas objeções à metodologia deles, mas é um passo razoável e é mais do que somos capazes nos EUA", disse Mirken. "Quando se está engatinhando e os demais estão caminhando, não dá para criticá-los por não correrem um quilômetro e meio em quatro minutos".

A cada 25 pessoas do planeta, uma delas é fumante da erva canábica

17 de outubro de 2009
Maconha: a cada 25 pessoas do planeta, uma delas é fumante da erva canábica

Novos dados e análises sobre consumo da maconha acabam de ser revelados e causaram, mais uma vez, efeito contrário ao desejado pela proibicionista e desprestigiada agência antidrogas e crimes das Nações Unidas (Unodc).
Frise-se: efeito contrário à linha de endurecimento praticada pela Unodc. Isto pelo fato de os dados mostrarem, com clareza solar, a falência das Convenções das Nações Unidas e das políticas proibicionistas e criminalizantes impostas ao mundo pelos EUA, via ONU.
Pelos últimos dados, 166 milhões de pessoas no mundo, num arco etário de 15 a 64 anos, consomem maconha.
Resumo da ópera: a cada 25 habitantes do planeta, um deles faz uso regular de maconha.
Por país, os maiores consumidores são EUA, Austrália e Nova Zelândia.
Decompondo os dados, 31% dos consumidores estão na Ásia, 25% na África e 24% na América. Quanto à Europa, detém 18% e a Oceania fica com 2%.
Os EUA, a Austrália e a Nova Zelândia, contemplam como crime o porte de drogas proibidas e impõem ao usuário pena de prisão. No Brasil, como se sabe, o porte continua crime e a pena não mais é de prisão, mas alternativa a ela: prestação de serviços à comunidade, etc.
Nos EUA, o usuário primário e surpreendido em flagrante delito é encaminhado à chamada Corte para dependentes Químicos.
Aí, o acusado fica num trágico e shakesperiano dilema, ou seja, poderá optar entre o tratamento ou a cadeia. De quebra, recebe o aviso, caso opte pelo tratamento, que a recidiva gerará prisão. É incrivelmene surpreendente, mas 100% dos acusados escolhem ao tratamento e não a cadeia ! ! !
Os dados supracitados acabam de ser publicados pela revista Lancet e referem-se ao ano de 2006. Não são ainda conhecidos os de 2007 e 2008.
Segundo levantamento de 2009 pela Louisa Degenhard of National Drug Alcohol Research Sidney´s Center, o consumo de maconha na Austrália e Nova Zelândia atinge 8% da população. O consumo maior está na faixa entre 15 e 64 anos de idade. Mas o consumo, consoante os pesquisadores, está em queda.
PANO RÁPIDO. A matéria da Lancet revela, também, uma importante pesquisa realizada nos EUA. Ela mostra que 10% do universo de consumidores norte-americanos fumam a erva canábica diariamente. Entre 20% e 30% fumam apenas uma vez por semana.
O consumo começa, sempre conforme a pesquisa, na adolescência e o pico é atingido entre 20 e 25 anos de idade. Com a idade adulta o consumo desaba. São fatores de queda o início de atividade laborativa ou nascimento de um filho.
Dos usuários nos EUA, 9% se tornam dependentes.
–Wálter Fanganiello Maierovitch–

Violência no Rio de Janeiro e Drogas

Violência no Rio de Janeiro: uma guerra previsível Para especialistas, conflito é um dos reflexos da tentativa do Rio em retomar áreas dominadas
Edson Luiz
Rodrigo Couto
Publicação: 20/10/2009 09:38
Os confrontos entre quadrilha rivais e a polícia no Rio de Janeiro já eram esperados e especialistas em segurança pública avaliam que as cenas de violência ocorridas no último fim de semana vão continuar e se intensificarão. A previsão é baseada a partir do que ocorreu em Medellín e Bogotá, na Colômbia, onde as cidades eram dominadas pelo crime organizado na década de 1990. Para o secretário nacional de Segurança Pública, Ricardo Balestreri, o que ocorre é a tentativa de retomada de territórios perdidos para os criminosos.Para Balestreri, o poder público no Rio perdeu um grande espaço conquistado nos últimos anos pelo crime organizado e agora decidiu retomá-lo não apenas oferecendo melhorias à população, mas partindo para o enfrentamento. Nesse cenário, criminosos de grupos rivais tentam tomar pontos estratégicos, como o Morro dos Macacos, o que gera confrontos. “Os indicativos são que essa situação vai continuar, como ocorreu na Colômbia, onde houve a luta pelos territórios perdidos”, afirma o secretário. “O que está acontecendo é trágico, mas está dentro de um contexto na luta contra o crime organizado.”Especialistas na área ouvidos pelo Correio divergem sobre as estratégias adotadas pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), realizadas em conjunto com o governo federal. A maioria, porém, defende a descriminalização dos usuários de drogas ilícitas. Na avaliação do advogado e ex-governador do Rio Nilo Batista, as medidas para proibir o consumo de drogas são equivocadas. “A política proibicionista concernente às drogas ilícitas é que produz esse genocídio em curso no Rio de Janeiro. Suspeitos são mortos e os policiais são expostos e morrem por conta de uma prática completamente obtusa, porque repete o fracasso de quatro décadas”, afirma.
De acordo com Nilo Batista, que também é professor de direito penal da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-secretário de Estado (Polícia e Justiça), a política repressiva às drogas ainda gera corrupção. “Muitas das facções criminosas têm relações com policiais.”Já o coordenador do Núcleo de Estudos da Cidadania, do Conflito e da Violência Urbana da UFRJ, Michel Misse, tem opinião diferente. Para ele, a política de ocupação social das favelas é correta e alija traficantes. “Esta medida conjunta de implantar o Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em comunidades de baixa renda tem se mostrado eficiente. Uma pena que ocorra somente em algumas favelas da Zona Sul carioca. É dispendioso, mas é uma forma eficiente de acabar com a violência e, ao mesmo tempo, oferecer cidadania”, salienta.Fim da PMPolêmico, o especialista em conflitos privados e públicos da Universidade de Brasília (UnB) Lúcio de Brito defende a extinção das polícias militares em todo o país. “Esses policiais são corporativistas e têm uma série de desvios. Sou contrário à separação de investigação e repressão entre a PM e a Polícia Civil. Essa última é que tem capacidade para concentrar tudo isso”, ressalta.O coordenador da organização não governamental Viva Rio, Antônio Rangel, afirma que a situação do estado fluminense vem piorando nos últimos 15 anos. “O narcotráfico não está derrotado e sobrevive porque tem o apoio de alguns setores da polícia”, afirma.

Para Lula e Uribe legalizar drogas não é forma de combater o narcotráfico.

Para Lula e Uribe legalizar drogas não é forma de combater o narcotráfico
Lula quer que países desenvolvidos tenha política severo de combate às drogas

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o da Colômbia, Álvaro Uribe, rejeitaram nesta segunda-feira a legalização das drogas como um instrumento eficaz para combater o narcotráfico. Os dois se encontraram em São Paulo para tratar de acordos bilaterais entre os países. - Eu, sinceramente, não acho que a legalização das drogas venha a resolver os problemas do consumo. Não acho que a legalização resolverá o problema, acho que devemos ser mais duros - disse Lula. O presidente da República pediu políticas mais severas para a redução do consumo nos países desenvolvidos. Lula afirmou ter conversado sobre o assunto com líderes de outros países, aos quais disse que se as nações ricas aplicassem uma política mais rígida aos consumidores de drogas, a demanda no mundo reduziria. O presidente considera ainda que os produtores de drogas deveriam trocar a indústria de "transformação química" de cultivos ilícitos por outras de rentabilidade agrícola. Já Uribe disse que o combate ao narcotráfico precisa de "posições de equilíbrio e levar à prisão os criminosos que distribuem impunemente a droga no 'micro tráfico', amparado na lei de dose pessoal". Em uma aparente referência à descriminalização da posse de uma quantidade de drogas para o consumo pessoal em alguns países, Uribe se perguntou: "Por que propõem a legalização da droga, se a droga já está legalizada?". O presidente colombiano reiterou seu pedido de cooperação ao Brasil na luta contra o narcotráfico na região amazônica. - Confiamos em que nos próximos dias seja aprovado o acordo de cooperação em termos de segurança para nos ajudarmos mutuamente. Necessitamos da ajuda do Brasil, do Governo do presidente Lula, para enfrentar o narcotráfico na região amazônica e queremos ter essa integração com o Brasil - disse Uribe. Lula e Uribe encerraram hoje em São Paulo o Encontro Empresarial Brasil-Colômbia, que contou com a participação de autoridades, ministros e 246 empresários dos dois países, 106 deles colombianos. O encontro foi promovido pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). EFE

Lula é contra legalização das drogas

Agência Estado
São Paulo - Após anunciar que o governo federal irá repor o helicóptero abatido por traficantes, sábado, no Rio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse hoje, em resposta a jornalistas, ser contra a descriminalização das drogas no País. "Eu, sinceramente, não acredito que a legalização das drogas vai resolver o problema do consumo. Não acredito." A proposta é defendida pelo ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
Na avaliação de Lula, os países ricos devem ser mais rígidos com os consumidores de drogas. "Temos de ser mais duros, precisamos evitar que as pessoas consumam. É preciso ter um processo de Educação, porque a cada dia o problema cresce mais. Cada dia temos a sensação de que é uma causa perdida, mas não podemos desanimar", encorajou Lula.
Ele afirmou que os investimentos do governo federal nas favelas têm o objetivo de reforçar a presença do Estado nas comunidades. "Estaremos dispostos a fazer tudo o que o governador (Sérgio Cabral, do Rio) precisar, limpando essa sujeira que essa gente põe no Brasil e no mundo. Tanta gente trabalhadora e honesta e uma meia dúzia de pessoas consegue ser chefe de outra meia dúzia que termina criando uma imagem negativa e vitimando pessoas honestas no Brasil", criticou o presidente.

Amor - Exigente - Mara Silva Carvalho de Meneses


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Publicada em 19/10/2009

Amor-Exigente
Pedagoga Mara Carvalho dá dicas de como trabalhar a prevenção às drogas


“O problema das drogas é o maior desafio do mundo de hoje e a sua prevenção se dá quando há união entre a população para esclarecer e preparar as pessoas sobre o uso das drogas”, explicou Mara Mara Silva Carvalho de Meneses, pedagoga e presidente do grupo ‘Amor-Exigente’, durante palestra no auditório da Unitins, no domingo, dia 18.
Mara apontou com principal caminho que a sociedade deve seguir; a busca pelos valores humanos, a convivência harmoniosa com a família e amigos, cultivar hábitos saudáveis e ter uma mudança de atitude diariamente.
Mas, ela é enfática, sem a elaboração de um plano de vida, as vezes as coisas não dão certo. Então, ela citou alguns princípios fundamentais para a prevenção ao uso das drogas: como a integridade moral e ética, a vivência de valores, a coerência e a pluralidade religiosa. “É preciso usar as diferenças a serviço do ser humano e da vida. O ‘Amor-Exigente’ está a serviço da transformação da nossa época, tendo como tema ‘cuidando de quem cuida’”.
Outra definição apontada por Mara é que o ‘Amor-Exigente’ é o reorganizador de atos para se viver melhor. Um dos primeiros pontos para se trabalhar a prevenção ao uso das drogas é conhecer a si mesmo e estar unido a um grupo de apoio de ajuda mútua.
Para trabalhar o desafio de combate as drogas, Mara frisou que a pessoa deve assumir o compromisso consigo mesma, sendo melhor hoje do que ontem.
Mara explicou que o governo tem um papel importante na prevenção às drogas, como promover ambientes saudáveis de convivência e realizando ações para retardar e prevenir o abuso de álcool ou outras drogas.
Outro fator importante é que as pessoas devem ter conhecimento sobre informações e dados sobre a situação das drogas no mundo, na região e no município para ter mais clareza do problema e como lidar com ele.
“O álcool é a porta entrada para os maiores problemas da sociedade, como violência e acesso a outras drogas”, alertou Mara. O alerta vai para os pais que não percebem que o álcool é uma droga e deixam os seus filhos menores de idade ingerir bebidas alcoólicas sem restrição.
Participaram do encontro 80 pessoas, entre elas, representantes de Araguaína, Novo Acordo, Lajeado, Tocantínia, Rio Maria (PA), Santana do Araguaia (PA) e Palmas.

Busca de alternativas
Crisnacleiton da Silva Pereira, 20 anos, veio de Santana do Araguaia, Pará, para conhecer o trabalho do grupo ‘Amor-Exigente’ e compartilhar a idéia com colegas da Diocese. “Valeu a pena ter vindo a este encontro. Precisamos trabalhar com os jovens esses valores humanos para que eles tenham novas alternativas”. Crisnacleiton irá realizar uma reunião com os jovens e paroquianos de Santana do Araguaia para viabilizar a criação dos grupos ‘Amor-exigente’. (Informações da Ascom/Seciju)